Sempre que enfrentamos um desafio familiar, queremos resolvê-lo o mais rapidamente possível. Vamos experimentando o que sabemos, da forma que melhor conseguimos, na esperança de rapidamente ultrapassar aquele problema, para voltar a alcançar o equilíbrio e harmonia familiares. Se algumas vezes o que já fazíamos e sabíamos resulta, na grande maioria dos casos não é suficiente. Mas continuamos a tentar. Com estratégias que já se revelaram ineficazes. E começamos a sentir frustração, angústia, desespero.

Quando não conseguimos resolver um problema, tal não quer dizer que este é inultrapassável. Significa antes que ainda não encontrámos uma resposta que nos servisse. Lembro-me muitas vezes de um episódio que vivi com a minha filha e que me ensinou isso mesmo.

A A. tinha cerca de 2 anos quando começou a recusar vestir qualquer peça de roupa pela cabeça. Chorava desalmadamente. Tentei tudo o que sabia e que já tinha testado anteriormente: falar com ela e explicar-lhe o que ia acontecer; dar-lhe tempo, esperando que ela me informasse quando estivesse pronta para vestir a camisola; escolher camisolas mais largas. Nada do que ia tentando funcionava. Ela entendia, acedia a que eu lhe vestisse a peça de roupa mas assim que a gola lhe pressionava a cabeça ela gritava. Muito. E bastante alto. Às vezes durante muito tempo. Chegámos a levar 45 minutos a conseguir prepará-la. Eu não queria forçá-la, achava que não era certo fazer algo que ela odiava fazer. Sentia que isso ia contra a minha intenção de respeitar a minha filha. Mas a verdade é que ela não podia andar sempre nua. Por vezes, eu já estava tão desesperada que chorava também. Outras vezes ficava muito irritada e gritava. Mas era, sem qualquer dúvida, um momento de grande sofrimento para ambas.

Uma manhã, no meio dum caos de gritos e choro, olhei para ela e percebi: aquela não era uma luta dela. Era minha. Era eu que estava a forçar uma coisa que para ela era insuportável. Acredito verdadeiramente que todo o comportamento tem por trás uma necessidade. E ela estava a manifestar uma necessidade, à qual eu não estava a conseguir atender. Lembro-me perfeitamente de estar ajoelhada no chão, à beira da cama e pensar: se ela tivesse um problema físico que a impedisse de vestir as camisolas pela cabeça, eu arranjava uma solução, certo? Naquele dia ficou vestida simplesmente com um casaco. Não era a solução ideal mas desenrascava. E a abertura estava criada. Eu iria encontrar forma de contornar a questão.

A resposta surgiria muito naturalmente, quando no dia seguinte lhe sugeri vestir um vestido com muitos botões, que permitia que fosse vestido pelos pés. Como não obrigava a passar pela cabeça, correu muito bem. Foi fácil, ela gostou. Eu estava aliviada: havia solução! Era, para além de simples, possível, viável, eficaz e ecológica para ambas. Posto isto, que interessava se era ou não uma resposta usual? Fiz uma selecção da roupa mais larga ou com botões, comprei camisolas pelo menos 2 tamanhos acima. E ela passou a vestir todas as camisolas e vestidos pelos pés. O alívio que eu sentia era palpável. As manhãs já não eram desesperantes. Eram serenas. E calmas. E harmoniosas. Ela sentia os seus limites respeitados. Eu sentia que tinha conseguido atender à minha filha e às suas necessidades. Nunca duvidei que aquele era o caminho que devíamos seguir. Sentia-o como certo para nós. Também nunca questionei se esta dinâmica duraria muito ou pouco tempo. Ia durar o que tivesse que durar. Para nós bastava.

Um dia, quase 4 meses depois, passámos por uma loja que tinha na montra um pijama com uma das personagens preferidas da minha filha. Ela pediu-me para lho comprar. Eu expliquei-lhe que o pijama era apertado e que só poderia ser vestido pela cabeça. Ela queria-o tanto que disse que não fazia mal. Confiei nela e o pijama veio connosco. Ela vestiu o pijama sem sofrimento, tal como passou a vestir toda a restante roupa. Já não era um problema para ela. Tinha passado o tempo de que ela necessitava para se sentir segura. Ela estava bem. E eu também.

Penso muitas vezes nesta situação e em quantas respostas não usuais mas ecológicas para a nossa família eu ainda não encontrei. Quando enfrentamos desafios e nós não estamos a encontrar a solução que nos faz sentido, isso não significa que ela não existe. Quer apenas dizer que não ainda não encontrámos. E tu, que soluções ainda não encontraste?