Enfrentar os nossos medos é talvez a coisa mais assustadora que fazemos. Quando somos crianças, os primeiros medos que enfrentamos são os dos monstros que podem estar atrás da porta. Com muita naturalidade pedimos ajuda. A um adulto em quem confiamos e que talvez possa ir connosco àquela temida divisão da casa. Talvez nos dê a mão. Talvez acenda a luz. Talvez nos diga uma palavra tranquilizadora. Talvez nos ajude apenas por estar presente.

Crescemos e os medos continuam lá. Apenas mudam de conteúdo. Todos os enfrentamos. Talvez seja o medo de falhar; de não ser suficiente; de enfrentar o julgamento dos outros; de não controlar o que vai acontecer; de não ser amada/amado. Há para todos os gostos e feitios. Estão sempre connosco. A sussurrar ao nosso ouvido. A pedir que os deixemos ficar onde estão, que não os desafiemos. Por vezes seguimos essa voz e deixamo-nos ficar onde estamos. É seguro. É confortável. É conhecido. É simples. E por momentos essa escolha traz-nos alívio. Diz-nos que estamos em segurança.

Mas esse sentimento é temporário. Começamos a não nos sentir tão fortes ou aconchegados. A inquietude começa a instalar-se. Não nos sentimos bem. Algo dentro de nós nos diz que ficar aqui não é o caminho. Nessa hora o medo vem novamente em força. E traz consigo dúvidas. Como é que eu posso mudar? Como é que eu sei o que vai acontecer se eu fizer algo diferente? Eu não sei a resposta a isso. Mas sei que estar aqui, no ponto onde me encontro, não me satisfaz. Por isso, apesar do medo me gritar (sim, nesta fase já não se limita a sussurrar) para ficar onde estou, vou dar um passo para sair daqui. O que vou encontrar não sei. Mas sei que vou à descoberta. Com medo, mas vou.

No outro dia a minha filha chegou extasiada junto a mim e disse “mamã, fui à sala sozinha e não estava lá nenhum monstro!”. Este episódio fez-me refletir muito sobre mim e os meus medos. Chegou a hora de eu abrir a porta de uma das minhas salas assustadoras. Talvez também eu venha a perceber que não há lá monstros!